quarta-feira, setembro 03, 2014

carta

cigana neoplatônica pós-hippie

utopia:
liberdade


força:
amor



movimento:
improvisado


arma:
palavra

domingo, agosto 17, 2014

dos amores intercontinentais

(ou: porque sou internacionalista, anarquista, universalista, holística e o que mais a linguagem verbal conseguir abranger nesse sentido - expandido - do que conhecemos...)

da luta
pela aceitação
de que estados
(d/e espíritos)
não têm fronteiras

e que ser
é raíz.
(pro/fundo)

e os territórios
são livres;
e vastos.

e a vida brota
em toda parte:
o tempo todo.

quinta-feira, agosto 14, 2014

s/t

ouvindo:
o barulho da rua
as rodas no alfalto
o ruído dos motores
as freadas dos ônibus
e buscando silêncio
dentro de mim

espera
respira

sexta-feira, junho 27, 2014

LIXRO

talvez a melhor coisa quando você tá travada num processo/projeto seja mergulhar em memórias.
tou numas imersões malucas, viagens por referências antigas e lembranças - algumas doídas.
mas tá sendo bom pra me ajudar a afinar a voz: buscar o timbre certo pro que quero contar.

acho que meu primeiro LIXRO vai ficar bonito.

(ou explicando porque, muito provavelmente, este blog vai ficar às moscas novamente...)


quinta-feira, junho 26, 2014

turismo afetivo

pra reencontrar amigos:
vivam eles
na vila,
no centro,
no rio,
em mangues,
e praias,
e serras,
da europa,
da américa,
do oriente,
de norte a sul;

é pra isso que eu vivo.

minhas viagens são feitas de abrigos.

sábado, maio 03, 2014

fogo

O barulho dos helicópteros sobrevoando a região era alucinante. Foi até a varanda ver se descobria o que estava acontecendo. Uma fumaça negra, no final da rua. Outros vizinhos nos terraços tirando fotos. Onde era o fogo? Era perto. Dava para sentir o cheiro de queimado daqui do alto do morro. A nuvem de chumbo não parava de crescer e se alastrar. Apagou o cigarro – se sentia mal por estar também queimando algo. Entrou e ligou a televisão num naqueles programas de jornalismo policialesco que tanto detesta. Estava lá: URGENTE: Incêndio em galpão de carros alegóricos na Zona Norte. Dois helicópteros mostrando cenas para tentar entender o rastro do perigo. Caminhões dos bombeiros a caminho para controlar o fogo. Os moradores das casas próximas fugindo, com medo de perder tudo o que haviam conquistado ali. Vez por outra, a câmera fazia zoom nas labaredas: altas e impiedosas. Pegou o telefone. Primeiro ligou para o irmão, que morava ali perto, pra saber se estava em casa, se estava seguro. Não atendeu. Chegou uma mensagem dizendo que estava no cinema. Respondeu avisando do incidente, que devia estar trânsito na volta para cá. Depois a irmã, que tinha saído de tarde, sei lá para onde. Olha, pegou fogo naquele galpão aqui perto, sabe? Do lado do posto de gasolina. Os soldados da brigada antincêndio já estão isolando o posto, está mostrando na TV. Só te liguei para avisar, pra se você estivesse voltando não se assustar com o caos. Acho que daqui a pouco vai estar tudo bem. Até mais, então. Também ligou para o pai e a mãe, que tinham saído há pouco e ainda iam demorar para regressar, mas quis falar com eles. Ficou com um pouco de medo. A fumaça. Era perto de casa. E o fogo tão alto na TV. Deu medo e ela ligou para todo mundo, para se sentir menos sozinha. Só não avisou à avô. Sentou-se com ela na sala para ver a novela e o noticiário local. Torceu para que o incêndio na vizinhança não estivesse na pauta. Mas queria saber se estava tudo bem. Deixou a TV do quarto ligada no outro canal. Afinal, o galpão estava mesmo desocupado? Havia feridos? Queria saber o que havia causado a faísca inicial daquele acidente. Será que foi acidente? Toda vez que terminava um cigarro pensava que uma bituca mal apagada jogada no chão podia dar merda. Ficou monitorando as duas TVs. Sempre se fazia muitas perguntas quando ficava assustada. Os helicópteros tinham ido embora e o apresentador sensacionalista já avisava que o fogo estava controlado. Colocou um resto de sopa na panela para esquentar no fogão. E acendeu um cigarro de alívio.

sábado, abril 12, 2014

o profeta

Tinha acabado de acordar de um cochilo. Ainda deitada na sombra de uma árvore, olhava o vento passar. Gostava de descansar naquele parque sempre tinha alguns minutos na hora do almoço. Naquele dia, o céu estava tão azul que os reflexos do sol nas folhas verdes faziam-na sonhar com o mar. Sentou-se e, com a calma habitual, começou a se preparar para levantar e voltar ao escritório. Estava calçando os sapatos quando uma voz grave porém suave disse pelas suas costas: “Não se preocupe, você vai ter sua casa na praia”.

Virou-se bruscamente e deu de cara com um homem, jovem e bonito: olhos grandes e sorriso largo. Inspirava confiança e sabedoria. Parecia não ter nenhuma dúvida sobre o que estava lhe dizendo. Perguntou seu nome. “Não importa, vai dar tudo certo.” Parecia realmente saber: de tudo. Do tédio que enfrentava no trabalho há sete anos; da dolorosa perda de seu pai; do caos que havia sobrado na casa vazia após tantas brigas; dos sonhos que agora ela só se permitia no pouco tempo em que repousava debaixo daquela tapuia.

- Como você sabe?
- Eu só sei... Sou um profeta.

Num instante de silêncio, se lembrou dos Zé-doidinhos com quem cruzava pela cidade, diariamente, anunciando o fim do mundo, uma avalanche de desgraças e a volta de Nosso Senhor Salvador. Era essa a ideia de profeta moderno que ela tinha. Não esse belo rapaz ostentando verdade de forma tão serena. “Pera: você pode prever o futuro porque tem acesso a informações privilegiadas de Deus?” Ele riu. E, pra encurtar a história, disse que era mais ou menos isso. “Sei o que vai acontecer e não posso fazer nada para mudar”.

Desistiu de voltar para o escritório. Perguntou a ele sobre o conflito na Ucrânia, se era essa a catástrofe que a Lua de Sangue iria anunciar. Ele não respondeu, disse que preferia falar de coisas mais amenas, do futuro dela. “Vai ser bom, acredite”. Seria feliz, enfim. Será que estava ficando louca por levá-lo a sério? Mas não era loucura também viver daquela forma, inerte? Iria ao trabalho somente no dia seguinte, para pedir demissão. Nem perguntou a ele se era o melhor a fazer: dava pra ler naqueles olhos verdes que sim.

- E você?
- O que tem eu?
- O seu futuro... como vai ser?
- Bem, eu estou aqui... com você.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

fragmentos pro tempo

1.

Me aborreço por ter contado o tempo. Gosto mais quando me entendo com ele e os dias viram semanas e depois meses sem eu nem perceber. Um dia de cada vez. É o que a prudência recomenda. E o que a ansiedade tenta sabotar. O tempo todo.

Os dias não têm sido fáceis. Não por eu estar ocupada tentando fazer as tarefas caberem nas horas. Pelo contrário. Tenho me dado ao luxo, muitas vezes, de apenas vê-las passar. Em filmes, livros, discos e idéias trocadas por minhas andanças.

Tenho passeado com o tempo, entre um compromisso e outro. O sol ardido tem tornado as caminhadas difíceis. O calor é agressivo e destempera. Busco uma sombra e conto o tempo. Poderia estar fazendo qualquer outra coisa e fico ali. Esperando.

Esperar me angustia. Fico aflita inventando por diversão respostas para questões insolúveis. É mais forte do que eu. Bebo. Muita água nesses dias. Às vezes choro. Água e sal. Sempre uma saída: o mar; o horizonte; o infinito. Soa bonito. Profundo. Mas dói.

Fumo pra matar um pouco do tempo. E uma parte de mim: a que nem sempre consegue lidar com o ritmo que a vida impõe. Descontrola. Briga com rotinas. Enraivece. Afunda. Dá erro. Fica triste. Deságua. Respira. Espairece e volta ao baile.

Contei as semanas virarem mês. E parei de calcular. Tenho mania de querer prever, mesmo sabendo que não adianta. Me irrito com o descompasso entre os meus desejos e o tempo. As respostas que não vem. E um futuro inteiro esperando para acontecer.

Lembrei que naquele dia, quase não fumei. O tempo foi gentil. As horas tiveram a delicadeza de só fluir entre nós. Sem incomodar. Não quis fugir: de mim; nem de você. Foi bom. Gosto quando é suave. Fico à vontade para ficar em silêncio. Sossego.

sábado, janeiro 18, 2014

antídoto pra ansiedade

Estar presente não significa ficar paranoico esperando qualquer coisa acontecer, ou se atentar aos mínimos detalhes. É sair da pressa, relaxar, embora com atenção, para que possamos compreender o acontecimento de forma inteira, no momento em que ele acontece para nós. É deixar que ele aconteça para nós.

do livro da minha amiga Fernanda Ratto, A experiência do cuidado de si.