sexta-feira, junho 27, 2014

LIXRO

talvez a melhor coisa quando você tá travada num processo/projeto seja mergulhar em memórias.
tou numas imersões malucas, viagens por referências antigas e lembranças - algumas doídas.
mas tá sendo bom pra me ajudar a afinar a voz: buscar o timbre certo pro que quero contar.

acho que meu primeiro LIXRO vai ficar bonito.

(ou explicando porque, muito provavelmente, este blog vai ficar às moscas novamente...)


quinta-feira, junho 26, 2014

turismo afetivo

pra reencontrar amigos:
vivam eles
na vila,
no centro,
no rio,
em mangues,
e praias,
e serras,
da europa,
da américa,
do oriente,
de norte a sul;

é pra isso que eu vivo.

minhas viagens são feitas de abrigos.

sábado, maio 03, 2014

fogo

O barulho dos helicópteros sobrevoando a região era alucinante. Foi até a varanda ver se descobria o que estava acontecendo. Uma fumaça negra, no final da rua. Outros vizinhos nos terraços tirando fotos. Onde era o fogo? Era perto. Dava para sentir o cheiro de queimado daqui do alto do morro. A nuvem de chumbo não parava de crescer e se alastrar. Apagou o cigarro – se sentia mal por estar também queimando algo. Entrou e ligou a televisão num naqueles programas de jornalismo policialesco que tanto detesta. Estava lá: URGENTE: Incêndio em galpão de carros alegóricos na Zona Norte. Dois helicópteros mostrando cenas para tentar entender o rastro do perigo. Caminhões dos bombeiros a caminho para controlar o fogo. Os moradores das casas próximas fugindo, com medo de perder tudo o que haviam conquistado ali. Vez por outra, a câmera fazia zoom nas labaredas: altas e impiedosas. Pegou o telefone. Primeiro ligou para o irmão, que morava ali perto, pra saber se estava em casa, se estava seguro. Não atendeu. Chegou uma mensagem dizendo que estava no cinema. Respondeu avisando do incidente, que devia estar trânsito na volta para cá. Depois a irmã, que tinha saído de tarde, sei lá para onde. Olha, pegou fogo naquele galpão aqui perto, sabe? Do lado do posto de gasolina. Os soldados da brigada antincêndio já estão isolando o posto, está mostrando na TV. Só te liguei para avisar, pra se você estivesse voltando não se assustar com o caos. Acho que daqui a pouco vai estar tudo bem. Até mais, então. Também ligou para o pai e a mãe, que tinham saído há pouco e ainda iam demorar para regressar, mas quis falar com eles. Ficou com um pouco de medo. A fumaça. Era perto de casa. E o fogo tão alto na TV. Deu medo e ela ligou para todo mundo, para se sentir menos sozinha. Só não avisou à avô. Sentou-se com ela na sala para ver a novela e o noticiário local. Torceu para que o incêndio na vizinhança não estivesse na pauta. Mas queria saber se estava tudo bem. Deixou a TV do quarto ligada no outro canal. Afinal, o galpão estava mesmo desocupado? Havia feridos? Queria saber o que havia causado a faísca inicial daquele acidente. Será que foi acidente? Toda vez que terminava um cigarro pensava que uma bituca mal apagada jogada no chão podia dar merda. Ficou monitorando as duas TVs. Sempre se fazia muitas perguntas quando ficava assustada. Os helicópteros tinham ido embora e o apresentador sensacionalista já avisava que o fogo estava controlado. Colocou um resto de sopa na panela para esquentar no fogão. E acendeu um cigarro de alívio.