sábado, abril 12, 2014

o profeta

Tinha acabado de acordar de um cochilo. Ainda deitada na sombra de uma árvore, olhava o vento passar. Gostava de descansar naquele parque sempre tinha alguns minutos na hora do almoço. Naquele dia, o céu estava tão azul que os reflexos do sol nas folhas verdes faziam-na sonhar com o mar. Sentou-se e, com a calma habitual, começou a se preparar para levantar e voltar ao escritório. Estava calçando os sapatos quando uma voz grave porém suave disse pelas suas costas: “Não se preocupe, você vai ter sua casa na praia”.

Virou-se bruscamente e deu de cara com um homem, jovem e bonito: olhos grandes e sorriso largo. Inspirava confiança e sabedoria. Parecia não ter nenhuma dúvida sobre o que estava lhe dizendo. Perguntou seu nome. “Não importa, vai dar tudo certo.” Parecia realmente saber: de tudo. Do tédio que enfrentava no trabalho há sete anos; da dolorosa perda de seu pai; do caos que havia sobrado na casa vazia após tantas brigas; dos sonhos que agora ela só se permitia no pouco tempo em que repousava debaixo daquela tapuia.

- Como você sabe?
- Eu só sei... Sou um profeta.

Num instante de silêncio, se lembrou dos Zé-doidinhos com quem cruzava pela cidade, diariamente, anunciando o fim do mundo, uma avalanche de desgraças e a volta de Nosso Senhor Salvador. Era essa a ideia de profeta moderno que ela tinha. Não esse belo rapaz ostentando verdade de forma tão serena. “Pera: você pode prever o futuro porque tem acesso a informações privilegiadas de Deus?” Ele riu. E, pra encurtar a história, disse que era mais ou menos isso. “Sei o que vai acontecer e não posso fazer nada para mudar”.

Desistiu de voltar para o escritório. Perguntou a ele sobre o conflito na Ucrânia, se era essa a catástrofe que a Lua de Sangue iria anunciar. Ele não respondeu, disse que preferia falar de coisas mais amenas, do futuro dela. “Vai ser bom, acredite”. Seria feliz, enfim. Será que estava ficando louca por levá-lo a sério? Mas não era loucura também viver daquela forma, inerte? Iria ao trabalho somente no dia seguinte, para pedir demissão. Nem perguntou a ele se era o melhor a fazer: dava pra ler naqueles olhos verdes que sim.

- E você?
- O que tem eu?
- O seu futuro... como vai ser?
- Bem, eu estou aqui... com você.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

fragmentos pro tempo

1.

Me aborreço por ter contado o tempo. Gosto mais quando me entendo com ele e os dias viram semanas e depois meses sem eu nem perceber. Um dia de cada vez. É o que a prudência recomenda. E o que a ansiedade tenta sabotar. O tempo todo.

Os dias não têm sido fáceis. Não por eu estar ocupada tentando fazer as tarefas caberem nas horas. Pelo contrário. Tenho me dado ao luxo, muitas vezes, de apenas vê-las passar. Em filmes, livros, discos e idéias trocadas por minhas andanças.

Tenho passeado com o tempo, entre um compromisso e outro. O sol ardido tem tornado as caminhadas difíceis. O calor é agressivo e destempera. Busco uma sombra e conto o tempo. Poderia estar fazendo qualquer outra coisa e fico ali. Esperando.

Esperar me angustia. Fico aflita inventando por diversão respostas para questões insolúveis. É mais forte do que eu. Bebo. Muita água nesses dias. Às vezes choro. Água e sal. Sempre uma saída: o mar; o horizonte; o infinito. Soa bonito. Profundo. Mas dói.

Fumo pra matar um pouco do tempo. E uma parte de mim: a que nem sempre consegue lidar com o ritmo que a vida impõe. Descontrola. Briga com rotinas. Enraivece. Afunda. Dá erro. Fica triste. Deságua. Respira. Espairece e volta ao baile.

Contei as semanas virarem mês. E parei de calcular. Tenho mania de querer prever, mesmo sabendo que não adianta. Me irrito com o descompasso entre os meus desejos e o tempo. As respostas que não vem. E um futuro inteiro esperando para acontecer.

Lembrei que naquele dia, quase não fumei. O tempo foi gentil. As horas tiveram a delicadeza de só fluir entre nós. Sem incomodar. Não quis fugir: de mim; nem de você. Foi bom. Gosto quando é suave. Fico à vontade para ficar em silêncio. Sossego.

sábado, janeiro 18, 2014

antídoto pra ansiedade

Estar presente não significa ficar paranoico esperando qualquer coisa acontecer, ou se atentar aos mínimos detalhes. É sair da pressa, relaxar, embora com atenção, para que possamos compreender o acontecimento de forma inteira, no momento em que ele acontece para nós. É deixar que ele aconteça para nós.

do livro da minha amiga Fernanda Ratto, A experiência do cuidado de si.